quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Os tristes dias do nosso infortúnio

Na terça-feira, 26 de Outubro, p.p., assistimos, estupefactos, a um espectáculo deprimente.
O dr. Cavaco consumiu vinte minutos, no Centro Cultural de Belém, a esclarecer os portugueses que não havia português como ele. Os portugueses, diminuídos com a presunção e esmagados pela soberba, escutaram a criatura de olhos arregalados. Elogio em boca própria é vitupério, mas o dr. Cavaco ignora essa verdade axiomática, como, aliás, ignora um número quase infindável de coisas.

O discurso, além de tolo, era um arrazoado de banalidades, redigido num idioma de eguariço. São conhecidas as amargas dificuldades que aquele senhor demonstra em expressar-se com exactidão. Mas, desta vez, o assunto atingiu as raias da nossa indignação. Segundo ele de si próprio diz, tem sido um estadista exemplar, repleto de êxitos políticos e de realizações ímpares. E acrescentou que, moralmente, é inatacável.

O passado dele não o recomenda. Infelizmente. Foi um dos piores primeiros-ministros, depois do 25 de Abril. Recebeu, de Bruxelas, oceanos de dinheiro e esbanjou-os nas futilidades de regime que, habitualmente, são para "encher o olho" e cuja utilidade é duvidosa. Preferiu o betão ao desenvolvimento harmonioso do nosso estrato educacional; desprezou a memória colectiva como projecto ideológico, nisso associando-se ao ideário da senhora Tatcher e do senhor Regan; incentivou, desbragadamente, o culto da juventude pela juventude, característica das doutrinas fascistas; crispou a sociedade portuguesa com uma cultura de espeque e atrabiliária e, não o esqueçamos nunca, recusou a pensão de sangue à viúva de Salgueiro Maia, um dos mais abnegados heróis de Abril, atribuindo outras a agentes da PIDE, "por serviços relevantes à pátria." A lista de anomalias é medonha.

Como Presidente é um homem indeciso, cheio de fragilidades e de ressentimentos, com a ausência de grandeza exigida pela função. O caso, sinistro, das "escutas a Belém" é um dos episódios mais vis da história da II República. Sobre o caso escrevi, no Negócios, o que tinha de escrever. Mas não esqueço o manobrismo nem a desvergonha, minimizados por uma Imprensa minada por simpatizantes de jornalismos e por estipendiados inquietantes. Em qualquer país do mundo, seriamente democrático, o dr. Cavaco teria sido corrido a sete pés.

O lastro de opróbrio, de fiasco e de humilhação que tem deixado atrás de si, chega para acreditar que as forças que o sustentam, a manipulação a que os cidadãos têm sido sujeitos, é da ordem da mancha histórica. E os panegíricos que lhe tecem são ultrajantes para aqueles que o antecederam em Belém e ferem a nossa elementar decência.

É este homem de poucas qualidades que, no Centro Cultural de Belém, teve o descoco de se apresentar como símbolo de virtudes e sinónimo de impolutabilidade. É este homem, que as circunstâncias determinadas pelas torções da História alisaram um caminho sem pedras e empurraram para um destino que não merece - é este homem sem jeito de estar com as mãos, de sorriso hediondo e de embaraços múltiplos, que quer, pela segunda vez, ser Presidente da nossa República. Triste República, nas mãos de gente que a não ama, que a não desenvolve, que a não resguarda e a não protege!

Estamos a assistir ao fim de muitas esperanças, de muitos sonhos acalentados, e à traição imposta a gerações de homens e de mulheres. É gente deste jaez e estilo que corrói os alicerces intelectuais, políticos e morais de uma democracia que, cada vez mais, existe, apenas, na superfície. O estado a que chegámos é, substancialmente, da responsabilidade deste cavalheiro e de outros como ele.

Como é possível que, estando o País de pantanas, o homem que se apresenta como candidato ao mais alto emprego do Estado, não tenha, nem agora nem antes, actuado com o poder de que dispõe? Como é possível? Há outros problemas que se põem: foi o dr. Cavaco que escreveu o discurso? Se foi, a sua conhecida mediocridade pode ser atenuante. Se não foi, há alguém, em Belém, que o quer tramar.

Um amigo meu, fundador de PSD, antigo companheiro de Sá Carneiro e leitor omnívoro de literatura de todos os géneros e projecções, que me dizia: "Como é que você quer que isto se endireite se o dr. Cavaco e a maioria dos políticos no activo diz 'competividade' em vez de 'competitividade' e julga que o Padre António Vieira é um pároco de qualquer igreja?"

Pessoalmente, não quero nada. Mas desejava, ardentemente desejava, ter um Presidente da República que, pelo menos, soubesse quantos cantos tem "Os Lusíadas."

Baptista-Bastos, "Jornal de Negócios", 29 Outubro 2010

O Libertador

Discurso à Nação - Candidato à Presidência Manuel João Vieira


in Programa da RT2 - "Cinco Para a Meia Noite"

Memória Histórica - 10 Novembro 2010


DESCRIÇÃO: A motocicleta estreou-se nas estradas. Começou nos Estados Unidos a "Rua Sésamo". O estudante americano Fred Cohen apresentou e documentou o primeiro vírus de computador. Episódio "Por que no te callas?". Nasceram Álvaro Cunhal, Richard Burton, Neil Gaiman. Morreram Miriam Makeba e Mustafa Kemal Ataturk. Billie Holiday canta "Fine and Mellow".

terça-feira, 9 de novembro de 2010

António Sérgio - A Verdadeira República

"A Verdadeira República" ¹

"O primeiro dever do republicano é contar com os demais homens, os demais partidos, as demais ideias, e praticar portanto na vida política a regra suprema de toda a moral, que consiste em nos considerarmos a nós próprios como sendo um termo de uma relação, – como uma parte de um conjunto, – de que os outros partidos, as outras ideias, as outras pessoas, são o outro termo e a outra parte. Só com uma asa não se pode voar. Cumpre, não só aceitar a diversidade, mas ter o amor da diversidade e o desejo [sincero] de que ela exista. Ora, se as aparências não erram muito, há chefes que procederam na nossa política como se considerassem o seu partido o único termo com que se deve contar, a única asa para o voo da Ideia, o soberano absoluto de Portugal: e poder-se-ia dizer ao cabo de contas que muitas das dificuldades da nossa República, e que as maiores desordens da nossa política, – vieram em suma a derivar-se de aí.
Não será desse erro que provém um outro, nos homens influentes dos nossos partidos: o de suporem que, desde que governe o seu partido, há verdadeira República na nossa terra, que basta que eles dominem para que a República exista, e que basta que eles não dominem para que não exista República?".

¹ António Sérgio, Ensaios, Tomo III, Sá da Costa Editora, 1972, pp.163-164. [Excerto de texto escrito em Paris em 1927.]

Cavaleiro da Triste Figura

Memória Histórica - 09 Novembro 2010


DESCRIÇÃO: Queda do "Muro de Berlim. Noite de Cristal, na Alemanha. Instauração da República de Weimar. Início da construção do Palácio da Ajuda. Nasceram Luiz Felipe Scolari, Carl Sagan. Smokey Robinson e os The Miracles lançaram o êxito "You've really got a hold on me".