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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Cavaco depositado no Museu de Cera de Madrid

A partir de Junho, a estátua de Cavaco Silva ficará na galeria reservada aos chefes de Estado do Museu de Cera de Madrid e terá por companhia Filipe Gonzalez, José María Aznar, David Cameron, Barack Obama e Nicolas Sarkozy.
Cavaco Silva já escolheu a indumentária que a sua réplica envergará - um fato escuro, camisa branca, sapatos pretos, gravata vermelha e botões de punho com o escudo da República Portuguesa - e realizou um ensaio fotográfico para o efeito.
Terá finalmente o povo português a oportunidade de ser ouvido com a mediação da sua "Maria"?

quarta-feira, 16 de março de 2011

Natália de Oliveira Correia (13 Setembro 1923 — 16 Março 1993)

(desenho de Vasco)

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.
Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.
Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.

Natália Correia, in "Poesia Completa", 1999.

Nota: Recordo com saudade as nossas noites no "Botequim". Uma amiga que perdi.

Vídeos
"Natália Correia - Bibliografia" - http://videos.sapo.ao/FbW4RH7owtER47cVuu3U
"Natália Correia - Escritora / Poeta" - http://videos.sapo.ao/eyZMB0Bhw9C9vb8v7S9a

domingo, 6 de março de 2011

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Comunicado de Paulo Nozolino e a devolução do Prémio à AICA/MC


COMUNICADO

Recuso na sua totalidade o Prémio AICA/MC 2009 em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo. O Estado, representado na figura do Ministério da Cultura (DGARTES), em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o! Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas.

A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS.

Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!

Na cerimónia de atribuição do Prémio foi-me entregue um envelope não com o esperado cheque de dez mil euros, como anunciado publicamente, mas sim com uma promessa de transferência bancária dessa mesma soma, assinada por Jorge Barreto Xavier, Director Geral das Artes. No dia seguinte, depois do espectáculo, das luzes e do social, recebo um e-mail exigindo-me que fornecesse, para que essa transferência fosse efectuada, certidões actualizadas da minha situação contributiva e tributária, bem como o preenchimento de uma nota de honorários, onde me aplicam a mencionada taxa de 10%, cuja existência é justificada pelo Director Geral das Artes como decorrendo de um pedido efectuado por aquela entidade à Direcção-Geral dos Impostos para emitir “um parecer no sentido de que, regra geral, o valor destes prémios fosse sujeito a IRS”.

Tomo o pedido de apresentação das certidões como uma acusação da parte do Estado de que não tenho a minha situação fiscal em dia e considero esse pedido uma atitude de má fé. A nota de honorários implica que prestei serviços à DGARTES. Não é verdade. Nunca poderia assinar tal documento.

Se tivesse sido informado do presente envenenado em que tudo isto consiste não teria aceite passar por esta charada.

Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições.

Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.

Paulo Nozolino
1 de Julho de 2010

Felizmente ainda há gente que não se curva. Com esta atitude merece respeito.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Cristo de Saramago encerra "Playboy" em Portugal

A polémica está servida!
Eis a capa da edição de Julho da "Playboy" portuguesa, naquela que pretendia ser uma homenagem ao Nobel da Literatura recentemente desaparecido, mas a polémica suscitada pelas imagens poderá ditar o encerramento da edição portuguesa.


Jesus Cristo sentado numa cama com uma mulher despida nos braços. Gravado na cabeceira, o título da obra de José Saramago, "O Evangelho Segundo Jesus Cristo".

Alegando não ter tido conhecimento prévio da polémica imagem, a Vice-Presidente da Playboy Entertainment, Theresa Hennessy , já veio dizer que se trata de "uma violação chocante das normas" e que "devido a esta e a outras questões com os editores portugueses, estamos prestes a rescindir o acordo".

A administração da Frestacom, detentora da "Playboy", explicou hoje a capa polémica da edição de Julho como um "ensaio original" e "único" sobre José Saramago, dizendo que não foi notificada pela "Playboy" internacional para encerrar como foi noticiado.

Em comunicado, a Frestacom explica que a capa da "Playboy", onde se vê Cristo junto de uma mulher seminua ao lado do título do livro de José Saramago "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", pretende ser uma "última homenagem" ao escritor recentemente falecido.

Prostituta, lésbicas e colegial

Mas se a imagem da capa está a suscitar polémica, as que surgem no interior da revista só lançam mais gasolina na fogueira.

Nas páginas interiores, Jesus Cristo é visto ao lado de uma prostituta, a observar duas lésbicas a trocarem carícias e ainda junto de uma mulher a usar a saia típica de uma colegial, mas com os seios à mostra.

"Não vimos nem aprovámos a capa e restantes fotografias. Trata-se de uma violação chocante das nossas normas e não teria sido permitida a publicação se tivéssemos conhecimento antecipado", afirmou Theresa Hennessy.

Conceito não foi captado

Admitindo tratar-se de um conteúdo "forte", a administração da "Playboy" portuguesa explica que o objectivo era transmitir uma mensagem "igualmente forte, sem necessidade de legendas".

"Aparentemente, algumas pessoas ainda não captaram a verdadeira essência e conceito da revista", lamenta a Frestacom, que se "espanta" com a "atenção dada ao imediato em detrimento da análise profunda" que, sublinham os responsáveis, é transmitida na produção fotográfica.

Alguns órgãos de media noticiaram hoje que a "Playboy" internacional" ficou desagradada com as imagens da capa da revista de Portugal e decidiu encerrar a edição.

A Frestacom refere, no entanto, que, "até à data não existe qualquer notificação por parte da Playboy Enterprises" referente à edição portuguesa da revista.
Edição de Agosto em marcha.

Contactados pela Lusa, tanto o Vice-Presidente da Frestacom, Gil Teixeira, como o Director da revista em Portugal, João Araújo, garantiram que "não está em causa" o fecho da revista e que a equipa da revista está a trabalhar no próximo número.

Assegurando que não recebeu "informação nenhuma" da administração internacional da revista, João Araújo afirmou estar a trabalhar "com a maior da normalidade".

domingo, 20 de junho de 2010

Férias Presidenciais

Funeral de José Saramago


"O que um Chefe de Estado deve fazer é diferente daquilo que deve ser feito pelos amigos ou deve ser feito pelos conhecidos. Devo dizer que nunca tive o privilégio na minha vida, se me recordo, de alguma vez conhecer ou encontrar José Saramago". (...) "Na minha qualidade de Chefe de Estado emiti uma nota oficial prestando homenagem à obra literária de José Saramago e ao seu contributo para a projecção da cultura portuguesa no Mundo".

Enviou uma coroa de flores e promulgou o "Decreto de declaração de dois dias de luto nacional".

... e ponto final!

Nota: Fica o registo do facto para memória futura.

sábado, 19 de junho de 2010

Morte de Sarmago

O que disseram os Políticos

Em todos os quadrantes da vida política houve reacções

"Escritor de projecção mundial, justamente galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, José Saramago será sempre uma figura de referência da nossa cultura" Cavaco Silva

"Os portugueses apreciaram muito a obra e a carreira de José Saramago, que deixou uma obra que orgulha o país" José Sócrates

"Uma perda para todo o colectivo partidário, para o partido que ele quis que fosse o seu até ao fim da sua vida" Jerónimo de Sousa

"Deixa uma obra literária intemporal. Com o seu desaparecimento, Portugal fica mais pobre" Passos Coelho

"Rígido, severo e senhor do seu nariz, se assim se pode dizer", mas também um homem "que se emocionava e que compreendia bem tudo aquilo que o cercava" Mário Soares

"À obra vasta de Saramago, poderemos voltar sempre, ao passo que a ele, ao homem, só nos resta lembrá-lo, coligindo memórias e compondo recordações" Jorge Sampaio

"A sua obra tem pontos de maior controvérsia e outros de enorme grandeza" Jaime Gama

"Afirmou a sua criação literária através da liberdade de pensamento" Gabriela Canavilhas, Ministra da Cultura

"Uma referência universal da grandeza e do desassombro" Manuel Alegre

"Um homem e um intelectual de convicções que honrou Portugal e o Mundo" Fernando Nobre

"Tomaremos em nossas mãos o exemplo do Saramago" Carvalho da Silva

"Levantado do chão, José Saramago combateu a cegueira, a cegueira social, que é o terreno da injustiça em Portugal" José Manuel Pureza, Líder Parlamentar do BE

"Como é sabido, há muitos pontos que ideologicamente nos separavam de José Saramago, uns históricos, outros mais contemporâneos" Teresa Caeiro

"Era um homem controverso, como todas as grandes personalidades, mas cultivava uma proximidade discreta e secreta com Portugal" Manuel Maria Carrilho

"Acho o "Ensaio Sobre a Cegueira" absolutamente fora-de-série" Isabel Pires de Lima, ex-Ministra da Cultura

...

"Memorial do Convento" de José Saramago evoca a história portuguesa do reinado de D. João V no século XVII, estabelecendo uma ponte com episódios políticos do século XX.
Caracteriza essencialmente uma época de excessos e diferenças sociais que podem ser remetidas para todas as épocas …

Morreu José Saramago - Perfil do Nobel da Literatura

Edição Especial JL / VISÃO dedicada a José Saramago.



Pequeno documentário exibido pela SIC no dia 18 Junho 2010 - "Morreu o grande escritor português José Saramago".

Foi um escritor que esteve sempre do lado dos menos desfavorecidos, como se pode ler nos seus primeiros livros e um lutador por um Mundo melhor e mais justo, Era militante do PCP e foi o único escritor de língua portuguesa a ganhar o Prémio Nobel da Literatura.

domingo, 28 de março de 2010

Hungu


Debaixo do sol de África, um menino caminha no deserto com os seus familiares.

A morte está chegando, mas o espírito de uma mãe, ressuscitada pela música dará a força e a vida ao menino quando se converta num homem.

O realizador combina a animação em 2D numa tabela gráfica com a calidez da animação da areia, unindo assim a modernidade e a tradição, Brasil e África, a música e a memória.

Para além do desenho e o lado humanista na sua perspectiva, o Hungu destila a elegância e o poder sugestivo de uma história sem tempo.

O Hungu é um instrumento musical de África, antepassado do berimbau brasileiro.

As suas origens remontam a uma antiga tradição. Inspirado pela graça e beleza crua das pinturas rupestres de África, Nicolas Brault aplica os seus dotes narrativos num mundo onde os seres humanos e a natureza estão subtilmente vinculados.

O Hungu, também conhecido em certas partes de Angola como "mbulumbumba", é considerado pelos musicólogos do mundo inteiro como a origem pré-histórica de todos os instrumentos modernos de corda.

Os escravos africanos levaram-no para o Novo Mundo, durante o infame tráfico negreiro.

Este interessante e apaixonante instrumento de corda, não é mais do que a transformação do arco (zagaia) do caçador-recolector da pré-história. E como todo o homo sapiens sapiens saiu de África, o Hungu foi levado para fora da mãe-África logo nas primeiras migrações da humanidade, há muitos milhares de anos, para dar origem a harpas, violinos, alaúdes, cítaras, liras, guitarras...

quarta-feira, 17 de março de 2010


Natália Correia – Escritora / Poeta
© Guida Abrantes, 2 mil e 10

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Autobiografia de Rosa Lobato Faria


A escritora, letrista e actriz Rosa Lobato Faria, morreu, dia 2 de Fevereiro de 2010, aos 77 anos, depois de uma semana de internamento num hospital privado. Foi colaboradora (dizendo poesias) de David Mourão-Ferreira em programas literários da televisão. Autora, entre outros, dos romances Flor do Sal, A Trança de Inês, Romance de Cordélia, O Prenúncio das Águas, ou mais recentemente A Estrela de Gonçalo Enes (ed. Quasi). Publicamos aqui a "autobiografia" que escreveu para o JL há dois anos.

Autobiografia.

Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância. Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam. A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve. Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à mesa com os adultos. Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e incompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas. Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo.

Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.

Na Infância as escolas ainda não tinham fechado. Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas. Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom.

Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.

E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa da aurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das papoilas. E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).

Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis. Aos treze fui, interna, para o Colégio. Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias. Tínhamos a certeza de que o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos, depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão de baile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.

Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te, menina, que vais ser escritora.

Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a música da poesia medieval ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu coitada, como vivo em gran cuidado, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.

Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves.

Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chave na porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca, vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadora do que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).

Mas o que sabíamos nós da vida real? Aos 17 anos entrei para a Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse. Aos 19 casei-me, ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido).

Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos.

Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente, isto talvez. Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim. E eu, tumba, lixo, se sempre foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres). Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução que nós fizemos nos últimos anos. Não meu amor: a revolução que NÓS fizemos nos últimos 50 anos. Mas não interessa quem fez o quê. É preciso é que tenha sido feito. E que seja feito. E eu fiz tudo, quando ainda não era suposto. Quando descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.

Depois foram as circunstâncias da vida. A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa. Tudo muito bom. Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada. Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta até, praticamente, ao infinito.

Pois é. Eu achava, pobre de mim, que era poetisa. Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde. A ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras. Também escrevia crónicas e contos e recados à mulher-a-dias. E de repente, aos 63 anos, renasci. Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis. (Esta não é a minha área, mas não sei porquê, pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando vou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).

Isto da idade também tem a sua graça. Por fora, realmente, nota-se muito. Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da imagem. Quando estou em processo criativo sinto-me bonita. É como se tivesse luzinhas na cabeça. Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens.

Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça, idade ou religião. É um progresso enorme.

Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30, comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer umas maluqueiras em novelas, séries, etc. Também escrevi algumas destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra). Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores.

Adoro actores. Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.

Que mais? Ah, as cantigas. Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das coisas mais divertidas que me aconteceu. Ouvir a música e perceber o que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma alma e é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria. Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal. Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga. Irrelevante.

Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas para contar. Mas não conto. Primeiro, porque não quero. Segundo, porque só me dão este espaço que, para 75 anos de vida, convenhamos, não é excessivo.

Encontramo-nos no meu próximo romance.

domingo, 19 de julho de 2009

sábado, 4 de julho de 2009

Maria João Pires diz-se "farta de coices e pontapés"

Maria João Pires vai renunciar à nacionalidade portuguesa.
A Ex-Ministra da Cultura diz que a pianista não tem razões de queixa.



"Não quero ter mais nada a ver com Portugal. Não devo nada ao país, nem Portugal me deve a mim." Foi desta forma, que a pianista Maria João Pires contou ao jornalista da Antena 2, Paulo Alves Guerra, que ia renunciar à nacionalidade portuguesa. A declaração, revelada ontem, foi feita nos corredores do Centro Comercial Amoreiras, em Lisboa. "Cruzei-me com a Maria João Pires, que estava às compras e começámos a conversar. Ao fim de cinco minutos, contou-me que ia renunciar à nacionalidade portuguesa porque está farta dos coices e pontapés que tem recebido de Portugal", diz ao "i" o jornalista.

A pianista, que tem dupla nacionalidade, vai passar a ser apenas brasileira. "A razão que me deu é que no Brasil, para onde foi em 2006, foi muito bem recebida. Está encantada e vai desenvolver um projecto hoteleiro, chamado Toca do Toco, em Salvador."

Paulo Alves Guerra fez questão de frisar que estava a falar com um jornalista, mas Maria João Pires respondeu que ele podia utilizar a informação como entendesse, só não permitia que gravasse a conversa. É que a artista se recusa a dar entrevistas à imprensa portuguesa.

A pianista já tinha ameaçado renunciar à nacionalidade, mas ao que parece desta vez é a sério. "Parecia uma atitude muito pensada", diz o jornalista. Dentro de duas semanas tudo estará tratado, mas antes o seu advogado emitirá uma declaração.

Com 65 anos, a multipremiada pianista está decepcionada com a forma como tem sido tratada no país. A causa de tanta decepção está relacionada com a forma como o governo tratou o seu projecto de ensino artístico de Belgais. Em Junho de 2006, Maria João Pires abandonou o projecto, no concelho de Castelo Branco, porque não aguentava a "tortura", disse na altura. A pianista contou ainda que o projecto tinha corrido bem em termos artísticos, mas administrativamente tinha sido uma tragédia.

Reacções face à vontade da pianista, vencedora do Prémio Pessoa em 1989, o Ministério da Cultura diz nada ter a declarar, uma vez que é uma decisão pessoal. A ex-Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, faz, no entanto, uma avaliação muito negativa deste comportamento: "Maria João Pires foi muito apoiada, pelo poder central e local. Um apoio que nem todos os artistas portugueses tiveram, mas ela não o soube aproveitar da melhor maneira." E vai mais longe: "Maria João Pires está a maltratar Portugal e os portugueses."

António Victorino d'Almeida discorda. "Ela tinha um projecto, não sei se era exequível ou não, mas foi aprovado governamentalmente. O que lhe fizeram, ao cancelar os fundos, foi puxar-lhe o tapete. No lugar dela, faria o mesmo", diz ao "i". O Maestro alerta que a Cultura continua a ser relegada para segundo plano: "Ainda bem que ela fez isto. É um golpe violento, mas eu faria o mesmo, se não tivesse problemas familiares que me prendem a Lisboa. Sabe o que é enviar cartas ao Primeiro-Ministro e nem receber uma resposta? É uma vergonha."

A quinta da pianista passou a alojar, desde 1999, a Associação Belgais, responsável por um projecto de ensino artístico integrado nas aulas de 40 crianças da Escola Básica da Mata. O acordado eram 170 mil euros por ano, mas o Ministério da Educação anunciou em Junho ter bloqueado subsídios "por falta de comprovativo de despesas" e revelou que parte do financiamento tem servido para pagar dívidas à Segurança Social e às Finanças.

in "i", 3 Julho 2009

Nota:
Maria João Pires, não tomou esta atitude por birrinha ou cretinice; aliás já há alguns tempos atrás, tinha manifestado o seu desagrado com a falta de apoio e de reconhecimento para com o seu valor artístico, carreira e projectos, por parte do poder político.
Tenho a certeza que a escumalha política nacional, quando a pianista falecer, vão ser os primeiros a reclamar que Maria João Pires, era uma grande figura da cultura portuguesa.
Mas enfim, toda a gente sabe que a escumalha só anda atrás do dinheiro e esta Senhora, tal como a Cultura, dá despesa, mas engrandece um País, que não é feito meramente de TGV´s, aeroportos, autoestradas, futebol e afins.
Outros seguirão os seus passos...
Portugal continua e continuará a ser um país de pacóvios.